O filme O discurso do rei, para quem não assistiu, conta a história do Rei Jorge VI na luta para superar sua gagueira.
Alguém pode pensar: “nada de mais, e daí?”
E daí que a profundidade do enredo vai muito além de uma simples superação que, aliás, dependeu fundamentalmente do auxílio de um terapeuta vocal, autodidata, chamado Lionel Logue.
O filme escancara a importância da linguagem.
É a linguagem, o instrumento e o ambiente em que se constrói a realidade. A percepção do mundo que não é “traduzível” na linguagem, não ingressa no plano da realidade.
Essa a importância do discurso do rei. A população inteira aguardava seu pronunciamento em um momento de guerra. Suas palavras eram responsáveis pela construção da realidade do povo naquele instante.
Além do filme contribuir para a percepção de que o indivíduo nada mais é que linguagem; texto a ser lido pelas outras pessoas, me fez pensar no que chamei de “discurso do Direito”.
A maioria das pessoas reclama que os advogados, juízes e promotores falam “juridiquês”; que ninguém entende e que é muito chato e cansativo.
Se isso for realidade, será que a justiça, declarada pelo Poder Judiciário, está cumprindo sua função?
Se o Direito está a serviço da sociedade, e não o contrário, e sua linguagem não é compreendida, é mais do que tardio o momento de parar e repensar se o tal do juridiquês funciona.
De uma sentença inteira, o máximo que se decifra é “condenado a XXX anos de”. Isso não pode acontecer. A população, até para conhecer aqueles que os julgam, precisa entender o que lá foi decidido, sentido (sentença); as razões que levaram a uma condenação ou absolvição. Os valores que se pretende manter, o que é justo ou não.
E isso deve ocorrer em qualquer área, seja civil, criminal, trabalhista etc. Aliás, deveria começar pelo texto da lei. Ora, se ninguém pode alegar que desconhece a lei, é evidente que a linguagem utilizada deve ser clara a ponto de qualquer pessoa entender. Isso não acontecendo, me parece perfeitamente possível o indivíduo falar que realmente não sabia.
Já é hora do Direito largar tradicionalismos que não levam a nada e se aproximar das pessoas, caso contrário, não se encontrará nenhum Lionel Logue que ajude a resolver o problema.